Termostato inteligente e Smart Homebrew

Família Marin se preparando pra primeira brassagemNo início de 2015 fiz a minha primeira brassagem, em Fernandópolis com o meu pai e mais dois primos. Naquela época, meu pai tinha comprado o kit de produção há pouco tempo e eu só tinha visto alguns vídeos no YouTube e lido alguns blogs / livros. Mas mesmo assim, aquela experiência mudou a minha percepção e, provavelmente, a minha vida.
Logo que voltei pra casa, montei o meu kit e logo brassei a minha primeira receita. Quem estiver curioso, pode encontrar as postagens sobre isso aqui no blog mesmo: Montando o primeiro “kit” de equipamentosPrimeira brassagem: American IPA – IPA[0].

A idéia do Smart Homebrew e do termostato inteligente

Bom, mas o projeto Smart Homebrew nasceu porque antes de cervejeiro caseiro, sou um nerd “por natureza”. E desde a primeira brassagem eu ficava imaginando como melhorar aquele processo, pois se fizesse uma boa cerveja (e fiz!!!) seria importante ter tudo anotado e controlado para que fosse possível repetir.

IMG_20150723_215551Além disso, nas férias de julho de 2015 eu tinha feito dois lotes de cerveja (uma IPA e uma Red Ale) e deixei maturando enquanto viajava, inclusive pensando que seria ótimo aquele período maior maturando.

Mas, ao sair de casa configurei o TIC17 (um termostato externo) errado, e ao invés de colocar 7ºC, coloquei 7ºC. E como você pode ver ao lado, eu quase perdi todo os 20 litros que estava produzindo. Ps.: Se um dia você congelar sua cerveja na maturação, calma! Descongele, siga com o processo que tudo (provavelmente) vai ficar bem! 🙂

Então, resolvi começar a projetar e criar o meu próprio termostato que fosse mais inteligente, que eu pudesse monitorar e controlar remotamente. E acima de tudo, queria algo que fosse de baixo custo, fácil de montar e de replicar. Por isso optei por utilizar Arduino e componentes simples.

Como queria compartilhar e manter isso aberto, todo o projeto vai ser Open Source e para melhorar a organização e contribuição de quem se interessar, criei uma organização específica para isso no GitHub, Smart Homebrew.

Resumindo um pouco a história acima, fiz esse vídeo pra apresentar e explicar a idéia:

O termostato

O termostato em si é bem simples, utilizei os seguintes componentes:

  • Arduino Uno
  • Sensor de temperatura DS18B20 da Texas Instruments
  • LCD de 4 linhas e 20 colunas
  • Módulo de relé pra Arduino (2 relés de 10A)
  • 3 push buttons, para configurações manuais
  • 2 leds para indicação de status

Ele basicamente vai lendo a temperatura e caso seja necessário resfriar, o relé 1 é acionado para ligar a geladeira. Quando é atingido a temperatura desejada menos a variação (geralmente 0.5 ºC), a geladeira é desligada e o relé 2 é acionado, caso alguém queira usar um sistema de aquecimento (necessário em regiões mais frias).

No vídeo abaixo é possível ver uma rápida demonstração do funcionamento:

Atualmente os dados são salvos na memória do Arduino (EEPROM), assim quando ele é ligado pela primeira vez, valores padrão são carregados para a memória (controle a 19 ºC e delta de 0,5 ºC). Depois, o usuário pode alterar essas configurações pelos controles manuais e esses valores são salvos na memória também. Assim, se cair energia ou resetar o Arduino, esses valores vão ser carregados da EEPROM e ele vai operar normalmente.

Nesse vídeo eu mostro como fazer a configuração do termostato:

Próximos passos

Atualmente esse termostato não é diferente de outros como TIC17, que estão disponíveis em lojas especializadas (ou no Mercado Livre). Por isso o foco principal agora é que ele transmita esses dados em tempo real para um servidor e possa receber comandos.

Dessa maneira, através de um web site ou aplicativo no celular vai ser possível saber como está a temperatura naquele exato momento e também alterar os parâmetros de configuração. Pra isso já estão a caminho um módulo WiFi (Esp8266) e um Shield Sd Card, assim ele vai armazenar e também transmitir dados. Um “esboço” de road map futuro seria:

  • Envio de dados para o servidor
  • Monitoramento e controle via Internet
  • Alarmes e notificações:
    • Tempo de inatividade (sem atualizações)
    • Funcionamento fora do esperado
    • Alterações no estágio de fermentação
  • Perfis de fermentação / maturação
  • Importação de perfis e instruções de softwares cervejeiros (BeerSmith)
  • Inclusão de novos sensores para medir nível de açúcar e álcool.

Projeto e código fonte

O código fonte para Arduino do termostato já está no GitHub, dentro do repositório thermostat-arduino, que pertence a organização Smart Homebrew. Assim, já é possível clonar o repositório, baixar o código e testar se você tiver os componentes.

O projeto ainda vai ser atualizado com as libs, desenho esquemático do circuito e outras instruções para você construir o seu termostato. Assim que isso for feito no repositório, também irei atualizar aqui o blog post.
Não está nos meus planos passar a vender o termostato montado, mas fornecer o projeto, código e dicas. A idéia é que seja algo fácil e descomplicado.

Se tiverem alguma sugestão de funcionalidade ou encontrarem algum bug, podem me enviar diretamente pela página de issues no GitHub ou até enviar um Pull Request. E se quiser conversar sobre o projeto, pode me encontrar no twitter (@netomarin) e também através dos comentários aqui nessa postagem.

Em breve volto com atualizações e novidades!

Abraços
Neto Marin

Primeira brassagem: American IPA – IPA[0]

E depois de toda saga da compra dos equipamentos, escolha de cada detalhe e a ansiedade pela chegada de cada item, chegou a hora de parar a conversa e colocar a panela no fogão pra fazer logo a primeira cerveja

E qual cerveja escolher pra fazer a primeira leva?

Esse é um assunto muito comum entre os iniciantes, afinal, geralmente há muitas dúvidas sobre o processo, como ordem das etapas, temperaturas, tempos e etc. E o conselho mais comum é o de optar pelas Pale Ales, pois são feitas com uma infusão simples e os processos de fermentação e maturação também são mais tranquilos (da até pra fazer em temperatura ambiente, dependendo de onde você morar). Outro motivo é que, alguns dizem que esse é um tipo de cerveja que “esconde” um pouco mais, eventuais erros no processo.

Acredito que a opção pelas Pale Ales seja realmente a mais adequada, pois cervejas como Largers e Pilseners precisam de um pouco mais de controle nos detalhes, e cervejas de trigo costumam ter alguns adjuntos que precisam de um pouco mais de experiência para o uso. E nem vou cogitar outros estilos mais complexos, como Golden Strong Ales, Stouts e etc, pois acho que demandam uma boa experiência e conhecimento dos processos, maltes e equipamentos.

Eu optei por fazer o meu estilo favorito, uma American India Pale Ale.
Esse estilo tem o processo bem parecido com o da Pale Ale, o que temos de diferença (na produção) é ter um pouco mais de lúpulos adicionados durante a fervura. E como optei por fazer dry hopping, tem o perigo de contaminação, oxidação e etc

Receita da IPA[0]

Batizei de IPA[0] a minha primeira cerveja, e se você não entendeu o porque, pergunte para um amigo que seja programador. 😀

Enfim, como um bom nerd, optei por colocar a receita no GitHub, pois como o BeerSmith (software pra elaboração de receitas, ferramentas e etc) exporta para XML, acho que é o lugar excelente para compartilhar arquivos desse tipo. Para facilitar, criei o repositório Homebrew, onde vou passar a compartilhar os meus arquivos relacionados a cerveja caseira.

Seguem abaixo os ingredientes para 10L:

E para quem quiser com mais detalhes ou importar para o BeerSmith (ou outro software qualquer), o arquivo está disponível no Github: IPA[0].xml.

Iniciando a brassagem

Ingredientes e equipamentos para brassagem da IPA[0]No dia anterior, comprei todos os ingredientes na Lamas Brew Shop em Campinas (o link em cada ingrediente leva pra loja virtual deles), onde o atendimento é excelente. Além disso, eles tem um moedor que disponibilizam para os clientes, e no meu caso é essencial pois optei por não ter um moedor.

Obs.: Algumas perguntas surgem sobre o tempo que o malte pode ficar guardado depois de moído e etc. Fiz algumas pesquisas, e para não alongar muito esse post, vou fazer uma postagem separada sobre o que encontrei.

E lembre-se de higienizar todos os equipamentos que vai utilizar. No meu caso, eu tenho um borrifador com álcool 70 e também preparei outro usando iodofor, que comprei na WE Consultoria. Para preparar o iodofor, segui as instruções na página da WE. Por enquanto não vou entrar em detalhes de produtos e processos, pois pretendo fazer um post só sobre isso. Mas pelo Google você vai encontrar bastante material sobre o assunto.

A água

Aquecendo a água para iniciar a mosturaPrimeriro passo, colocar a água para aquecer. A idéia aqui é chegar até perto dos 70º celsius, para que quando os maltes forem adicionados, a temperatura caia para 66º. No meu caso, demorou um pouco para cair, mas serviu de aprendizado sobre a panela (lembre-se, é a primeira brassagem nessa panela).

E quanto de água usar para fazer a cerveja?

É possível encontrar diversos blog posts e artigos sobre como calcular a quantidade de água necessária, sempre partindo de quanto se deseja ter de cerveja fermentando. Isso porque os grãos absorvem água, há perdas na mostura e principalmente na fervura.

No meu caso, montei a receita no BeerSmith e ele calcula automaticamente a quantidade de água necessária. Isso pode ser verificado na aba “Volumes” ou também quando se consulta os “Brew Steps (Etapas de Fabricação)”.

Como podem perceber, estou usando um grain bag. Já expliquei no post sobre os equipamentos, mas reforçando, quis usá-lo pois vou usar apenas uma panela para mostura e fervura. Para isso, basta retirar o saco com os grãos e não é preciso usar fundo falso ou bazooka

Mostura

MosturaCom o malte na panela, é hora de cozinhar o mosto, (mostura). A minha intenção era fazer uma cerveja de corpo leve, fácil de beber e pra isso, de acordo com algumas pesquisas, teria que manter a temperatura por volta dos 64º celsius. Com essa temperatura, a sacarificação demorou um pouco mais dos que os 60 minutos planejados, o teste do iodo só foi dar negativo por volta dos 75 minutos de mostura. Apesar de cansativo, nenhum segredo nessa etapa. Basta ficar atento ao termômetro e entender como sua panela se comporta na hora de aquecer o mosto e manter sempre a temperatura perto do desejado.

Mash out e recirculação

Depois que o teste do iodo der negativo, é hora do mash out, que é elevar a temperatura do mosto a 78º celsius pra inativar as enzinas e preparar para a filtração e lavagem. O mosto deve ficar então entre 76º e 79º celsius, durante 10 minutos.

Passados esses 10 minutos, hora de fazer a recirculação (também chamam de filtração ou clarificação). Aqui, usei uma jarra de 1,5 L para retirar mosto da panela e com a ajuda de uma escumadeira, voltava o mosto para a panela. O uso da escumadeira é para que quando despejado de volta, o mosto se espalhe e não forme canais no malte, o que diminuiria a capacidade de filtrar e todo a função da recirculação.

Então, fazendo o mosto passar várias vezes pela camada de malte, que funciona como um filtro e vai retendo as “impurezas”, é possível perceber que o mosto vai ficando mais claro. Algumas pessoas indicam para fazer esse processo por X litros ou algo assim, mas eu fiz até perceber que a cor do mosto não estava clareando mais.

Lavagem (sparge)

Depois de terminada a recirculação, esvaziei a panela passando o mosto para o balde fermentador. Em outra panela tinha aquecido o restante da água (7,5 l) à 78º celsius para fazer a lavagem do mosto (sparge), que consiste em passar água limpa e quente pela camada de maltes. Usei o restante de água indicado na receita, e por fim, dei uma recirculada para garantir uma boa eficiência. Retirei então o grain bag com o malte da panela (cuidado nessa hora, pois os grãos ficam pesados) e voltei o mosto que estava no balde fermentador para a panela.

Espera aí… sparge no BIAB?

Alguns que não são tão iniciantes, podem estar questionando porque fiz lavagem, mesmo usando o método BIAB (Brew In A Bag). Mas na verdade, o meu processo não está sendo um BIAB “legítimo”, pois para isso toda a água deveria ser colocada no começo da mostura (além de outros detalhes). Meu objetivo com o grain bag, como já falei, é facilitar a remoção dos grãos e assim utilizar a mesma panela para mostura e fervura.

Fervura

Iniciando a fervuraChegou a hora da fervura. É nessa hora que os lúpulos, que dão amargor e aroma a cerveja, são colocados. Como estou usando um fogão residencial, optei por colocar um ebulidor para chegar a temperatura de fervura mais rapidamente.

Recomendo que você já pese e separe as porções de lúpulo antes de começar a fervura, para que não corra o risco de perder o momento ou acabar esquecendo. Isso pode descaracterizar o que você espera da sua cerveja.

Fervura acontecendoPara etapa não há muito o que fazer além de controlar o tempo e ir adicionando os lúpulos nas quantidades da receita, de acordo com os tempos de fervura especificado. Nessa hora, vale lembrar que, se na receita diz, por exemplo, que são 10 minutos de fervura, o lúpulo vai ser adicionado depois que se passarem 50 minutos do início da fervura.

Segui então até completar os 60 minutos de fervura e desliguei a panela. Mais alguns passos e já vamos colocar o mosto para fermentar.

Resfriamento e Whirlpool

Depois da fervura é hora preparar o mosto para ser transferido para o balde fermentador e inocular a levedura (fermento). Inclusive, foi um dos passos do processo onde vi a maior variedade de métodos e dicas diferentes de como fazer. Após ler várias fontes, montei o processo que está descrito abaixo.

Primeiro, o mosto deve descansar por aproximadamente 10 minutos, para que o máximo de trub (“sujeira”) decante. E na hora de passar o mosto para o balde fermentador, é importante que essa sujeira fique toda na panela, para evitar sabores indesejados, os off flavors, na fermentação.

whirpoolPara facilitar esse passo, é importante fazer o whirlpool, ou “abrasileirando”, um redemoinho. Com uma colher (devidamente sanitizada), gire (mexa) o mosto de forma rápida e continua, formando um redemoinho. Mantenha o ritimo por uns 5 minutos e então deixe em repouso por aproximadamente 10 à 15 minutos.

Trub na panela

Nesse tempo, a “sujeira”, ou trub, deve decantar e se o whirlpool teve o efeito desejado, esse trub deve ficar concentrado no centro da panela, facilitando assim a retirada do mosto da panela. E repetindo, é importante que essa sujeira não vá para o fermentador.

Se preferir, use um filtro, peneira ou algo assim, mas não se esqueça de sanitizar muito bem qualquer coisa que for entrar em contato com o mosto após a fervura.

Após o whirlpool, é hora de resfriar o mosto para poder inocular a levedura (fermento). A temperatura adequada para cada fermento está descrito na embalagem. Normalmente se usa um chiller (de imersão, placas, contra-fluxo ou algum outro), ou alguma outra técnica como balde de gelo. Imaginei que por ser um volume pequeno (10 l), poderia colocar o mosto direto na geladeira que seria usada para fermentação e maturação, para resfriar até 23º celsius e poder inocular o fermento. Mas, isso se provou bem ineficiente. O mosto só foi atingir os 23º por volta das 5:30 da manhã 🙁

Obs.: Como essa minha técnica se mostrou muito ruim, mudei a estratégia na segunda brassagem e usei um grande “balde” cheio de gelo, onde coloquei a panela e deixei em repouso pelos 10 minutos antes do whirlpool e foi o suficiente para resfriar (chegou a 20º celsius). Escreverei mais detalhes no post da segunda brassagem.

Fermentação

Atenção, para que as leveduras façam um bom trabalho, além do açúcar, é importante que tenha oxigênio para elas consumirem. Por isso, é importante aerar o mosto, e no caso de um volume pequeno como o que eu fiz, se na hora de transferir da panela para o balde, você deixar “cair” de uma altura perto de 50 cm, já será suficiente. Em volumes maiores, muitos cervejeiros caseiros costumam usar uma bomba (tipo a de aquário) para oxigenar o mosto.

Balde fermentador

Quando o mosto finalmente atingiu os 23º celsius, despejei o pacote de fermento seco dentro do balde, fechei bem, coloquei a mangueira do borbulhador e deixei o trabalho com as leveduras, que agora iriam transformar todo açúcar do mosto em álcool. 😀

O balde, como podem ver na foto ao lado, está dentro de uma geladeira, que está ligada a um termostato TIC-17 da Full Gauge, e através do sensor colado ao balde mantém a temperatura controlada (ligando e desligando a geladeira). Para a fermentação, a temperatura foi mantida em 19º celsius durante 7 dias.

Mas é só jogar o fermento direto assim?

O assunto do fermento daria um post só para isso, pois muitos dizem que é necessário fazer um starter (hidratar o fermento), deixar na temperatura adequada e só então despejar no mosto. Mas também li que por ser um volume baixo, mesmo que algumas leveduras morressem no começo, não seria muito problema.

Como não sou nenhum especialista em leveduras e processo de fermentação, não vou entrar em detalhes aqui. No meu caso, espalhei o fermento seco mesmo e tudo correu muito bem. Mas, se você quer ler mais sobre o assunto, indico o post “Como fazer starter – Tudo o que você precisa saber“, do Lamas Blog.

E o seu o airlock, borbulhou?

Keep calm and airlock não é densímetroNo meu caso é um borbulhador, mas a atividade não foi tão intensa. Mas, na vedade isso não importa…

Primeiro, o verifique se o balde está bem vedado. Você pode verificar isso apertando levemente a tampa e vendo se o airlock borbulha, indicando que a única saída de gás é pelo airlock.

E o mais importante, meça a densidade do mosto em dias consecutivos para saber quando a fermentação chegou ao fim. No meu caso, eu uso refratômetro para não perder muita cerveja.

E agora? Quais os próximos passos?

Bom, como esse post já ficou maior do que eu esperava, vou deixar os próximos passos (maturação, dry hopping, clarificação, envase e carbonatação) para um outro post.

Minha intenção aqui era compartilhar como foi a minha primeira brassagem, e como fiz os principais passos para produzir a minha primeira cerveja caseira. Espero que o conteúdo desse post ajude quem está começando, e que assim como eu, buscou aprender através de blogs, artigos, vídeos e etc.

Fique a vontade para enviar suas dúvidas, sugestões e também dicas nos comentários desse post. Com certeza, vão ser úteis para outros visitantes também.

Abraços e boas brassagens!
Neto Marin

Montando o primeiro “kit” de equipamentos

Olá pessoal,

Hoje estou aqui para falar de um assunto que comumente aparece nos grupos ou em conversas informais sobre cerveja, a montagem do primeiro “kit” de equipamentos para fazer cerveja em casa. A idéia é falar desde decisões como comprar um kit pronto, cada coisa separada ou até fazer o seu próprio equipamento. Mas também de quantos litros deve ser, quais equipamentos são essenciais, quais são úteis e etc.

Kit pronto ou montar o próprio kit?

Há uma altura dessa, você provavelmente já assistiu vários vídeos no YouTube, está devorando posts e mais posts em diversos blogs, comprou/emprestou livro(s) e talvez tenha até participado de alguma brassagem (se ainda não fez, procure alguma e vá. Ajuda muito no processo) e então, a ansiedade para fazer a sua primeira brassagem está cada vez maior e aí você resolve comprar os equipamentos. Mas ao ver tantas opções, bate aquela dúvida: kit pronto ou vou comprando as coisas?

Não há como negar que os kits que estão disponíveis em diversas lojas são uma maneira bem prática (e rápida) de se começar, mas na minha opinião, eles costumam ser engessados e permitem pouca ou nenhuma customização. E se você já participou de alguma brassagem, já vai ter uma opinião mais bem formada sobre o processo e os equipamentos que usou ou viu durante essa aventura.

Há algum tempo, ajudei meu pai a escolher um kit pronto, justamente para economizar tempo e porque conhecíamos praticamente nada de fazer cerveja em casa. Vou listar abaixo os kits que analisei na época e as conclusões e escolha que cheguei:

  • Cerveja da Casa (kits de 10, 20 e 40 litros): Foi o kit escolhido (de 40L), pois me pareceu (na época) ter um bom custo benefício e era o único com o moinho de rolo, e várias pessoas falaram super bem desse moinho. Além disso, era com fundo falso e tinha a bomba de recirculação, e que também parecia ser uma excelente opção para o processo. O envio foi no prazo correto, e os produtos chegaram todos em ordem.
  • Lamas Brew (Kit Básico de Fabricação de Cerveja – 20 Litros): Pareceu um ótimo kit, mas na época havíamos optado pelo kit com fundo falso e bomba, e esse é com bazooka. E também havia alguns itens que não queríamos e não tinha como remover, achei a customização limitada. Custo benefício bom.
  • Cervejando (vários kits): Achei a página confusa, os kits com uma explicação complicada e também com nenhuma customização possível. Senti falta de alguns itens no kit, como sanitizantes, pá, balança, densímetro e etc. Apesar de se dizer voltado para iniciantes, e ter até material didático, eu como iniciante não me senti confiante para adquirir esse kit.
  • Alquimia da Cerveja (vários kits): Eles possuem mais ou menos uns 10 kits diferentes, com vários preços e composições. Alguns até com fermentador cônico e tudo mais. Na época da escolha, o que me afastou foi justamente a quantidade de variações e, mais uma vez, a falta de customização dos kits.
  • WE Consultoria (kits de 30 e 60 L): Parece na verdade mais uma lista de equipamentos, sem a opção de compra direto pelo site ou de como customizar. Há o telefone para entrar em contato e nada mais.

Claro que existem outros kits por aí, mas comecei a ver que a maioria era muito parecido e com um preço bem próximo também. Então, acabamos optando por alguns detalhes que gostamos mais, que foi o do fundo falso, bomba de recirculação e o moinho de rolo. E claro, imagino que se entrasse em contato com os fornecedores dos kits, provavelmente eles iriam ajudar na customização ou algo assim, mas idéia era uma experiência de compra totalmente online e direta.

O meu “kit” e a escolha da litragem

Bom, depois de ter ajudado meu pai na escolha dele, ter feito uma brassagem em conjunto e lido mais um pouco, resolvi que para os meus equipamentos iria fazer uma montagem personalizada e pesquisando em várias lojas. A minha escolha foi a montagem de um kit para produção de 10 litros, com o grain bag para usar apenas uma panela.

Toda a montagem foi considerando que moro em apartamento, por isso tenho pouco espaço para a produção da cerveja e também para armazenar os equipamentos. Além disso, também não posso usar fogareiro no apartamento com um botijão GLP por causa das regras do condomínio (que tem gás encanado da ComGás).

Além disso, escolhi a quantidade de 10L por ser mais fácil para fazer em fogões “convencionais” e porque quero arriscar algumas receitas além do básico, então, arriscar com 10L é um um risco menor do que partir pra 30, 40 ou 50L logo de uma vez.
E claro, caso eu decida pela expansão posterior, o negócio vão ser “só” as panelas e fermentadores, pois o restante dos equipamentos irão praticamente se manter os mesmos.

E vamos ao kit que montei. Pra facilitar, dividi em algumas categorias de equipamentos e vou colocar o link de onde comprei cada equipamento, além de alguns comentários do porquê da minha escolha e possíveis substituições, e no final, um resumo com os preços..

Equipamentos essenciais

  • Balança digital de precisão 10 kg (R$ 19,80)
  • Panela brassagem – número 28 / 12,5L (R$ 129):
  • Grain Bag (R$ 33,94): Se quiser utilizar duas panelas, não é “obrigatório” ter o grain bag.
  • Filtro Bazooka (R$ 51,90): Também é possível optar pelo fundo falso, mas nesse caso você irá precisar de uma bomba ou então, ficar fazendo a recirculação o tempo todo na mão mesmo, para manter a temperatura homogênea.
  • Pá cervejeira (R$ 9,70)
  • Fermentador c/ borbulhador- 12L  (R$ 29,00)
  • Termômetro (R$ 28,01)
  • Iodo (R$ 6,00)
  • Tampinhas (R$ 7,00)
  • Arrolhador (R$ 139,98): Optei por um modelo mais caro, pois achei os outros meio ruins. Mas, você pode economizar aqui se quiser (a partir de R$ 47,90)
  • Refratômetro (R$ 165,00): É possível usar um densímetro que sai muito mais barato (R$ 65). Porém, como vou fazer levas de 10L, ficar “perdendo” 250 ml cada vez que fosse fazer a medição me fez comprar o refratômetro.

Alguns podem ter notado a ausência de um moinho, e realmente está faltando. Como moro em apartamento e algumas lojas aqui na região oferecem um moedor para os clientes, optei por poupar meus vizinhos do barulho da furadeira girando o moinho (na mão não é que não ia fazer mesmo hehehe).

Valor total dos itens essenciais: R$ 619,33.
Se preferir usar um arrolhador mais barato e um densímetro, sairia aproximadamente por R$ 427,25.

Limpeza e sanitização

  • Iodofor (R$ 30,00): Depois de ler alguns artigos e considerações, optei pelo Iodofor ao invés do ácido peracético (talvez tema de um futuro post).
  • Escova para garrafas (R$ 9,70)
  • Borrifador (procure em alguma loja na sua cidade, sai mais barato – aprox. R$ 5,00)

Acessórios e complementos

  • Full Gauge Termostato Tic-17rgti (R$ 77,00): Ajuda muito no controle das temperaturas de fermentação e carbonatação.
  • Escorredor de garrafas p/ 45 garrafas (R$ 83,30): Como disse, moro em apartamento, não tenho muito espaço pra secar as garrafas após a sanitização, por isso resolvi comprar.
  • Ebulidor pequeno de alumínio (R$ 39,90): Muitos comentaram da possível demora do fogão convencional, então resolvi comprar esse ebulidor.
  • Auto-sifão (R$ 55,20): Se você tem um fermentador com torneira, não é um item obrigatório. Mas, facilita a passagem pra garrafa e se usado com o tubo de enchimento, fica mais fácil ainda.
  • Grampo auto-sifão (R$ 11,90): Pra estabilizar o auto-sifão e evitar que passe sendimentos para as garrafas.
  • Mangueira 1m 3/8 (R$ 5,00): Para conectar o auto-sifão no tubo de enchimento)
  • Tubo de enchimento 3/8 (R$ 14,90): Muito prático e evita a aeração do mosto, que não é desejado nesse ponto.
  • Manômetro + Adaptador para garrafa sem rosca (R$ 93,00): Item que facilita o acompanhamento da carbonatação da cerveja.

Valor final do meu “kit” completo, incluindo frete das compras: R$ 1.007,75

Isso é o que chegou até agora das compras e como organizei no pequeno espaço que tenho disponível:

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Equipamentos guardados

E por que você não comprou tudo separado e montou a panela e fermentador?
Bom, eu tenho habilidade quase ZERO para furadeiras e similares, e nem tenho espaço para ter uma oficina aqui. Se você tem espaço e habilidade, vai encontrar diversos vídeos e postagens sobre como construir sua panela.

Pretendo em breve, como um bom nerd, começar um projeto de automatizar partes ou todo o processo, mas por enquanto preferi comprar as “coisas prontas”.

E isso é o que posso contar sobre a montagem do meu “kit” e o porquê de algumas das escolhas que fiz, como tipos de equipamentos, litragem e etc. Espero que ajude outros iniciantes.

Abraços
Neto Marin

Um nerd começando uma nova aventura…

Olá pessoal,

Talvez alguns que chegaram a esse blog, especialmente a essa postagem, já me conhecem de eventos de tecnologia e de palestras, principalmente sobre Android e tecnologias móveis.

Mas para os que não me conhecem, sou o Neto Marin (@netomarin no Twitter) e gosto de computadores desde os 9 anos de idade, quando meu pai me levou a uma sucursal do Bradesco (onde ele trabalhava na época), e entrei no CPD que existia lá (ainda existem CPDs hoje?), e simplesmente fiquei impressionado com aqueles computadores e tudo mais. Desde então, já sabia o que queria fazer “quando crescesse”. Pois bem, comecei com vários cursos, programando desde cedo (acho que desde os 11) e me formei em Análise de Sistemas na PUC-Campinas e trabalho na área, atualmente no Google em São Paulo.

No Google faço um trabalho que algumas outras empresas chamam de “evangelismo”, apesar de não gostar dessa palavra, é o modo mais fácil de descrever o que faço por lá. Crio conteúdo, gravo vídeos, apresento palestras e treinamentos. E mesmo antes de entrar no Google, sempre gostei de compartilhar o que estava estudando ou aprendendo, e o meu primeiro blog técnico foi por volta de 2003.

Neto Marin

Bom, e quando comecei a gostar mais das cervejas artesanais / especiais, comecei como a maioria começa. Experimentando uma Paulaner ou Erdinger em alguns bares, depois indo para algumas mais especiais e até que quando se percebe, o gosto pelas especiais já vira uma certa paixão.

E para mim, que já gosto de cozinhar e me reunir com amigos, a vontade de começar a fazer a minha própria cerveja foi aumentando. Desde o meio do ano passado tenho lido e assistido bastante vídeos (assuntos que vou abordar aqui no blog), e finalmente no começo desse ano fiz a primeira brassagem com meu pai e primos, como a foto pode comprovar 🙂

Família Marin se preparando pra primeira brassagem

Ainda não provei como ficou, pois estou em Piracicaba e a produção ficou na casa do meu pai, em Fernandópolis. Mas, vai uma foto de quando foi aberta a primeira garrafa da Lolla Pale Ale (em homenagem a minha avó) 🙂

Lolla Pale Ale

E agora, estou querendo me aprofundar mais, fazer minhas próprias receitas e vou seguir a mesma idéia que tive com meus estudos de TI, blogar! Resolvi criar esse blog para compartilhar os assuntos que gosto, minhas descobertas, receitas, cervejas, comidas e tudo que está relacionado com esse mundo.

Talvez para um cervejeiro mais experiente, o conteúdo aqui não vá ser de tanta relevância, mas pretendo principalmente ajudar quem está, como eu, começando. Por isso coloquei como brassador e não cervejeiro ou mestre cervejeiro, pois acho que seria a mesma coisa que se chamar de chef de cozinha porque sabe fazer um bom macarrão ou risoto…

Enfim, pretendo aprender e compartilhar muito e esse vai ser o principal canal para registrar esses avanços e conhecimento.

Espero que gostem!

Abraços
Neto Marin